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Teorema do Valor Intermediário

No estudo da continuidade, vimos que uma função contínua não apresenta "saltos" em seu gráfico.

Essa propriedade permite obter uma importante conclusão: se uma função contínua assume dois valores, então ela também assume todos os valores que estão entre eles.

Esse resultado é conhecido como Teorema do Valor Intermediário.

1. Ideia intuitiva​

Imagine uma função contínua definida em um intervalo [a,b][a,b].

Suponha que

f(a)=2f(a)=2

e

f(b)=8.f(b)=8.

Se a função é contínua nesse intervalo, então, para passar do valor 22 ao valor 88, ela necessariamente precisa assumir todos os valores entre eles.

Por exemplo, deve existir algum ponto c∈[a,b]c\in[a,b] tal que

f(c)=5.f(c)=5.

O mesmo vale para qualquer valor kk entre 22 e 88.

Assim, se

2<k<8,2<k<8,

então existe algum c∈[a,b]c\in[a,b] tal que

f(c)=k.f(c)=k.

Essa é a ideia central do Teorema do Valor Intermediário.


2. Enunciado do Teorema do Valor Intermediário​

Seja ff uma função contínua no intervalo fechado [a,b][a,b].

Se kk é um número compreendido entre f(a)f(a) e f(b)f(b), então existe pelo menos um número c∈[a,b]c\in[a,b] tal que

f(c)=k\boxed{ f(c)=k }

Em outras palavras, uma função contínua assume todos os valores intermediários entre f(a)f(a) e f(b)f(b).


3. Representação matemática​

Suponha, por exemplo, que

f(a)<k<f(b).f(a)<k<f(b).

Se ff é contínua em [a,b][a,b], então existe c∈(a,b)c\in(a,b) tal que

f(c)=k.f(c)=k.

Também podemos ter

f(b)<k<f(a).f(b)<k<f(a).

O teorema continua sendo válido.

Portanto, não importa qual dos extremos possui o maior valor.

O ponto fundamental é que kk esteja entre f(a)f(a) e f(b)f(b).


4. Por que a continuidade é importante?​

A hipótese de continuidade é essencial.

Considere uma função que apresenta um salto.

Por exemplo,

f(x)={1,x<0,5,x≥0.f(x)= \begin{cases} 1, & x<0,\\ 5, & x\geq0. \end{cases}

Temos

f(−1)=1f(-1)=1

e

f(1)=5.f(1)=5.

Entretanto, a função nunca assume os valores entre 11 e 55.

Por exemplo, não existe xx tal que

f(x)=3.f(x)=3.

Isso acontece porque a função não é contínua em x=0x=0.

Portanto, o Teorema do Valor Intermediário depende diretamente da continuidade.


5. Aplicação: provar a existência de uma raiz​

Uma das aplicações mais importantes do Teorema do Valor Intermediário é provar que uma equação possui pelo menos uma solução.

Considere uma função contínua ff em [a,b][a,b].

Se

f(a)<0f(a)<0

e

f(b)>0,f(b)>0,

então o número 00 está entre f(a)f(a) e f(b)f(b).

Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe c∈(a,b)c\in(a,b) tal que

f(c)=0.f(c)=0.

Portanto,

f(c)=0\boxed{ f(c)=0 }

e, consequentemente, cc é uma raiz da função.


6. Critério para existência de uma raiz​

Podemos resumir esse resultado da seguinte forma.

Se ff é contínua em [a,b][a,b] e

f(a)⋅f(b)<0,f(a)\cdot f(b)<0,

então existe pelo menos um c∈(a,b)c\in(a,b) tal que

f(c)=0\boxed{ f(c)=0 }

Esse resultado é uma consequência direta do Teorema do Valor Intermediário.


7. Exemplo: provar que uma equação possui solução​

Considere a equação

x3+x−1=0.x^3+x-1=0.

Queremos mostrar que essa equação possui pelo menos uma solução no intervalo [0,1][0,1].

Definimos

f(x)=x3+x−1.f(x)=x^3+x-1.

Como ff é um polinômio, ela é contínua em todo R\mathbb{R}.

Agora calculamos os valores nos extremos.

Para x=0x=0:

f(0)=03+0−1=−1.f(0)=0^3+0-1=-1.

Para x=1x=1:

f(1)=13+1−1=1.f(1)=1^3+1-1=1.

Portanto,

f(0)<0f(0)<0

e

f(1)>0.f(1)>0.

Logo,

f(0)⋅f(1)<0.f(0)\cdot f(1)<0.

Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe c∈(0,1)c\in(0,1) tal que

f(c)=0.f(c)=0.

Portanto, a equação

x3+x−1=0x^3+x-1=0

possui pelo menos uma solução no intervalo (0,1)(0,1).

Observe que não precisamos encontrar o valor exato dessa solução.

O teorema nos permite apenas garantir sua existência.


8. O teorema não fornece necessariamente a solução​

É importante compreender uma característica do Teorema do Valor Intermediário.

Ele garante a existência de um ponto cc, mas não necessariamente fornece seu valor.

Por exemplo, no problema anterior sabemos que existe

c∈(0,1)c\in(0,1)

tal que

c3+c−1=0.c^3+c-1=0.

Entretanto, o teorema não informa diretamente qual é o valor de cc.

Para encontrar uma aproximação numérica, podemos utilizar métodos específicos, como o método da bisseção.


9. Exemplo geométrico​

Considere novamente uma função contínua ff em [a,b][a,b].

Suponha que

f(a)<0f(a)<0

e

f(b)>0.f(b)>0.

Geometricamente, o gráfico começa abaixo do eixo xx e termina acima dele.

Como a função é contínua, o gráfico precisa cruzar o eixo xx em algum ponto.

Esse ponto possui coordenada x=cx=c e satisfaz

f(c)=0.f(c)=0.

Assim, o Teorema do Valor Intermediário garante matematicamente a existência desse cruzamento.


10. Exemplo​

Mostre que a equação

x2−2=0x^2-2=0

possui uma solução no intervalo [1,2][1,2].

Definimos

f(x)=x2−2.f(x)=x^2-2.

A função é um polinômio e, portanto, é contínua em [1,2][1,2].

Calculando os extremos:

f(1)=12−2=−1f(1)=1^2-2=-1

e

f(2)=22−2=2.f(2)=2^2-2=2.

Assim,

f(1)<0f(1)<0

e

f(2)>0.f(2)>0.

Logo,

f(1)⋅f(2)<0.f(1)\cdot f(2)<0.

Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe c∈(1,2)c\in(1,2) tal que

f(c)=0.f(c)=0.

Portanto,

c2−2=0.c^2-2=0.

Concluímos que a equação possui pelo menos uma solução no intervalo (1,2)(1,2).

De fato, essa solução é

c=2.c=\sqrt2.

Mas observe que o objetivo do Teorema do Valor Intermediário era garantir a existência da solução.


11. Uma consequência importante​

O Teorema do Valor Intermediário também pode ser utilizado para localizar raízes.

Suponha que ff seja contínua e que

f(a)⋅f(b)<0.f(a)\cdot f(b)<0.

Então sabemos que existe uma raiz entre aa e bb.

Podemos então dividir o intervalo em partes menores e repetir o processo.

Essa ideia é a base do método da bisseção.


12. Resumo​

O Teorema do Valor Intermediário afirma que uma função contínua assume todos os valores intermediários entre dois valores que ela assume.

Se ff é contínua em [a,b][a,b] e kk está entre f(a)f(a) e f(b)f(b), então existe c∈[a,b]c\in[a,b] tal que

f(c)=k\boxed{ f(c)=k }

Um caso particularmente importante ocorre quando

f(a)⋅f(b)<0.f(a)\cdot f(b)<0.

Nesse caso, existe pelo menos uma raiz c∈(a,b)c\in(a,b) tal que

f(c)=0.\boxed{ f(c)=0. }

13. Próximo passo​

O Teorema do Valor Intermediário garante a existência de uma raiz, mas ainda podemos querer encontrar uma aproximação para essa raiz.

Para isso, estudaremos o Método da Bisseção, que utiliza repetidamente a ideia do Teorema do Valor Intermediário para reduzir o intervalo onde a raiz está localizada.