Teorema do Valor Intermediário
No estudo da continuidade, vimos que uma função contínua não apresenta "saltos" em seu gráfico.
Essa propriedade permite obter uma importante conclusão: se uma função contínua assume dois valores, então ela também assume todos os valores que estão entre eles.
Esse resultado é conhecido como Teorema do Valor Intermediário.
1. Ideia intuitiva
Imagine uma função contínua definida em um intervalo .
Suponha que
e
Se a função é contínua nesse intervalo, então, para passar do valor ao valor , ela necessariamente precisa assumir todos os valores entre eles.
Por exemplo, deve existir algum ponto tal que
O mesmo vale para qualquer valor entre e .
Assim, se
então existe algum tal que
Essa é a ideia central do Teorema do Valor Intermediário.
2. Enunciado do Teorema do Valor Intermediário
Seja uma função contínua no intervalo fechado .
Se é um número compreendido entre e , então existe pelo menos um número tal que
Em outras palavras, uma função contínua assume todos os valores intermediários entre e .
3. Representação matemática
Suponha, por exemplo, que
Se é contínua em , então existe tal que
Também podemos ter
O teorema continua sendo válido.
Portanto, não importa qual dos extremos possui o maior valor.
O ponto fundamental é que esteja entre e .
4. Por que a continuidade é importante?
A hipótese de continuidade é essencial.
Considere uma função que apresenta um salto.
Por exemplo,
Temos
e
Entretanto, a função nunca assume os valores entre e .
Por exemplo, não existe tal que
Isso acontece porque a função não é contínua em .
Portanto, o Teorema do Valor Intermediário depende diretamente da continuidade.
5. Aplicação: provar a existência de uma raiz
Uma das aplicações mais importantes do Teorema do Valor Intermediário é provar que uma equação possui pelo menos uma solução.
Considere uma função contínua em .
Se
e
então o número está entre e .
Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe tal que
Portanto,
e, consequentemente, é uma raiz da função.
6. Critério para existência de uma raiz
Podemos resumir esse resultado da seguinte forma.
Se é contínua em e
então existe pelo menos um tal que
Esse resultado é uma consequência direta do Teorema do Valor Intermediário.
7. Exemplo: provar que uma equação possui solução
Considere a equação
Queremos mostrar que essa equação possui pelo menos uma solução no intervalo .
Definimos
Como é um polinômio, ela é contínua em todo .
Agora calculamos os valores nos extremos.
Para :
Para :
Portanto,
e
Logo,
Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe tal que
Portanto, a equação
possui pelo menos uma solução no intervalo .
Observe que não precisamos encontrar o valor exato dessa solução.
O teorema nos permite apenas garantir sua existência.
8. O teorema não fornece necessariamente a solução
É importante compreender uma característica do Teorema do Valor Intermediário.
Ele garante a existência de um ponto , mas não necessariamente fornece seu valor.
Por exemplo, no problema anterior sabemos que existe
tal que
Entretanto, o teorema não informa diretamente qual é o valor de .
Para encontrar uma aproximação numérica, podemos utilizar métodos específicos, como o método da bisseção.
9. Exemplo geométrico
Considere novamente uma função contínua em .
Suponha que
e
Geometricamente, o gráfico começa abaixo do eixo e termina acima dele.
Como a função é contínua, o gráfico precisa cruzar o eixo em algum ponto.
Esse ponto possui coordenada e satisfaz
Assim, o Teorema do Valor Intermediário garante matematicamente a existência desse cruzamento.
10. Exemplo
Mostre que a equação
possui uma solução no intervalo .
Definimos
A função é um polinômio e, portanto, é contínua em .
Calculando os extremos:
e
Assim,
e
Logo,
Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe tal que
Portanto,
Concluímos que a equação possui pelo menos uma solução no intervalo .
De fato, essa solução é
Mas observe que o objetivo do Teorema do Valor Intermediário era garantir a existência da solução.
11. Uma consequência importante
O Teorema do Valor Intermediário também pode ser utilizado para localizar raízes.
Suponha que seja contínua e que
Então sabemos que existe uma raiz entre e .
Podemos então dividir o intervalo em partes menores e repetir o processo.
Essa ideia é a base do método da bisseção.
12. Resumo
O Teorema do Valor Intermediário afirma que uma função contínua assume todos os valores intermediários entre dois valores que ela assume.
Se é contínua em e está entre e , então existe tal que
Um caso particularmente importante ocorre quando
Nesse caso, existe pelo menos uma raiz tal que
13. Próximo passo
O Teorema do Valor Intermediário garante a existência de uma raiz, mas ainda podemos querer encontrar uma aproximação para essa raiz.
Para isso, estudaremos o Método da Bisseção, que utiliza repetidamente a ideia do Teorema do Valor Intermediário para reduzir o intervalo onde a raiz está localizada.