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Continuidade de uma Função

Depois de estudar os limites fundamentais, podemos utilizar os limites para compreender quando uma função é contínua.

A continuidade é um dos conceitos fundamentais do Cálculo, pois estabelece uma relação entre o comportamento de uma função próximo de um ponto e o seu próprio valor nesse ponto.

1. Ideia intuitiva de continuidade​

Uma função é contínua em um ponto quando seu comportamento não apresenta uma "quebra" naquele ponto.

Intuitivamente, podemos pensar em uma função contínua como aquela cujo gráfico pode ser desenhado próximo ao ponto sem precisar "levantar o lápis".

Entretanto, essa interpretação geométrica é apenas uma ideia inicial. A definição matemática será feita utilizando limites.

2. Continuidade em um ponto​

Considere uma função ff definida em um intervalo que contém o ponto aa.

Dizemos que ff é contínua em aa quando

lim⁡x→af(x)=f(a)\boxed{ \lim_{x\to a}f(x)=f(a) }

Essa igualdade é a definição fundamental de continuidade.

3. As três condições da continuidade​

Para que uma função seja contínua em aa, precisamos verificar três condições:

  1. f(a)f(a) deve existir;
  2. lim⁡x→af(x)\displaystyle\lim_{x\to a}f(x) deve existir;
  3. Os dois valores devem ser iguais:
lim⁡x→af(x)=f(a).\lim_{x\to a}f(x)=f(a).

Portanto,

f eˊ contıˊnua em a  ⟺  lim⁡x→af(x)=f(a)\boxed{ f \text{ é contínua em } a \iff \lim_{x\to a}f(x)=f(a) }

4. Exemplo de função contínua​

Considere

f(x)=x2+3x−1.f(x)=x^2+3x-1.

Queremos verificar se ff é contínua em x=2x=2.

Primeiro, calculamos o valor da função:

f(2)=22+3(2)−1.f(2)=2^2+3(2)-1.

Logo,

f(2)=4+6−1=9.f(2)=4+6-1=9.

Agora calculamos o limite:

lim⁡x→2(x2+3x−1).\lim_{x\to2}(x^2+3x-1).

Como se trata de um polinômio, podemos utilizar a substituição direta:

lim⁡x→2(x2+3x−1)=22+3(2)−1=9.\lim_{x\to2}(x^2+3x-1) = 2^2+3(2)-1 = 9.

Assim,

lim⁡x→2f(x)=f(2)=9.\lim_{x\to2}f(x)=f(2)=9.

Portanto,

f eˊ contıˊnua em x=2\boxed{ f \text{ é contínua em } x=2 }

5. Exemplo de função descontínua​

Considere

f(x)={x+1,x≠2,5,x=2.f(x)= \begin{cases} x+1, & x\neq2,\\ 5, & x=2. \end{cases}

Vamos verificar a continuidade em x=2x=2.

Calculando o limite:

lim⁡x→2f(x)=lim⁡x→2(x+1)=3.\lim_{x\to2}f(x) = \lim_{x\to2}(x+1) = 3.

Por outro lado,

f(2)=5.f(2)=5.

Como

lim⁡x→2f(x)≠f(2),\lim_{x\to2}f(x)\neq f(2),

a função não é contínua em x=2x=2.

Portanto,

f eˊ descontıˊnua em x=2\boxed{ f \text{ é descontínua em } x=2 }

6. Continuidade lateral​

Em algumas situações, especialmente quando uma função é definida por partes, precisamos analisar separadamente o comportamento da função pela esquerda e pela direita.

Lembre que um limite bilateral existe quando os limites laterais existem e são iguais:

lim⁡x→af(x)=L\lim_{x\to a}f(x)=L

se, e somente se,

lim⁡x→a−f(x)=lim⁡x→a+f(x)=L.\lim_{x\to a^-}f(x) = \lim_{x\to a^+}f(x) = L.

Assim, para verificar a continuidade de uma função em aa, podemos comparar os limites laterais com o valor da função.

Exemplo​

Considere a função

f(x)={x+2,x<1,4,x=1,2x+1,x>1.f(x)= \begin{cases} x+2, & x<1,\\ 4, & x=1,\\ 2x+1, & x>1. \end{cases}

Vamos verificar se ff é contínua em x=1x=1.

Primeiro, calculamos o limite pela esquerda:

lim⁡x→1−f(x)=lim⁡x→1−(x+2).\lim_{x\to1^-}f(x) = \lim_{x\to1^-}(x+2).

Portanto,

lim⁡x→1−f(x)=3.\lim_{x\to1^-}f(x)=3.

Agora calculamos o limite pela direita:

lim⁡x→1+f(x)=lim⁡x→1+(2x+1).\lim_{x\to1^+}f(x) = \lim_{x\to1^+}(2x+1).

Logo,

lim⁡x→1+f(x)=3.\lim_{x\to1^+}f(x)=3.

Como os limites laterais são iguais,

lim⁡x→1f(x)=3.\lim_{x\to1}f(x)=3.

Porém,

f(1)=4.f(1)=4.

Assim,

lim⁡x→1f(x)≠f(1).\lim_{x\to1}f(x)\neq f(1).

Portanto, a função não é contínua em x=1x=1.

f eˊ descontıˊnua em x=1\boxed{ f \text{ é descontínua em } x=1 }

7. Funções contínuas em um intervalo​

Uma função é contínua em um intervalo quando é contínua em todos os pontos desse intervalo.

Por exemplo, considere

f(x)=x2.f(x)=x^2.

Como os polinômios são contínuos em todos os números reais, temos

f(x)=x2 eˊ contıˊnua em R\boxed{ f(x)=x^2 \text{ é contínua em } \mathbb{R} }

Em particular, podemos escrever

lim⁡x→ax2=a2=f(a)\lim_{x\to a}x^2=a^2=f(a)

para qualquer a∈Ra\in\mathbb{R}.

Continuidade em intervalos fechados​

Quando consideramos um intervalo fechado [a,b][a,b], a continuidade é analisada:

  • nos pontos interiores, utilizando o limite bilateral;
  • no extremo aa, utilizando o limite pela direita;
  • no extremo bb, utilizando o limite pela esquerda.

Assim, uma função ff é contínua em [a,b][a,b] quando é contínua em todos os pontos interiores e satisfaz

lim⁡x→a+f(x)=f(a)\lim_{x\to a^+}f(x)=f(a)

e

lim⁡x→b−f(x)=f(b).\lim_{x\to b^-}f(x)=f(b).

8. Tipos de descontinuidade​

Quando uma função não é contínua em determinado ponto, dizemos que ela apresenta uma descontinuidade nesse ponto.

Existem diferentes tipos de descontinuidade.

Os principais são:

  1. descontinuidade removível;
  2. descontinuidade de salto;
  3. descontinuidade infinita.

A classificação depende do comportamento dos limites laterais e do valor da função.


9. Descontinuidade removível​

Considere uma função para a qual

lim⁡x→af(x)=L\lim_{x\to a}f(x)=L

existe, mas

f(a)≠Lf(a)\neq L

ou f(a)f(a) não está definida.

Nesse caso, temos uma descontinuidade removível.

O nome vem do fato de que, em determinadas situações, podemos eliminar a descontinuidade definindo adequadamente o valor da função no ponto.

Exemplo​

Considere

f(x)=x2−1x−1.f(x)=\frac{x^2-1}{x-1}.

Para x≠1x\neq1, podemos fatorar o numerador:

x2−1=(x−1)(x+1).x^2-1=(x-1)(x+1).

Portanto,

f(x)=(x−1)(x+1)x−1.f(x) = \frac{(x-1)(x+1)}{x-1}.

Para x≠1x\neq1,

f(x)=x+1.f(x)=x+1.

Assim,

lim⁡x→1f(x)=lim⁡x→1(x+1)=2.\lim_{x\to1}f(x) = \lim_{x\to1}(x+1) = 2.

Entretanto, a expressão original não está definida em x=1x=1, pois teríamos

12−11−1=00.\frac{1^2-1}{1-1} = \frac00.

Portanto,

lim⁡x→1f(x)=2\boxed{ \lim_{x\to1}f(x)=2 }

mas f(1)f(1) não existe.

Temos, portanto, uma descontinuidade removível em x=1x=1.

Se definirmos uma nova função por

g(x)={x2−1x−1,x≠1,2,x=1,g(x)= \begin{cases} \dfrac{x^2-1}{x-1}, & x\neq1,\\ 2, & x=1, \end{cases}

então

lim⁡x→1g(x)=g(1)=2.\lim_{x\to1}g(x)=g(1)=2.

Logo, gg é contínua em x=1x=1.


10. Descontinuidade de salto​

Uma função apresenta uma descontinuidade de salto quando os limites laterais existem, mas possuem valores diferentes:

lim⁡x→a−f(x)≠lim⁡x→a+f(x).\lim_{x\to a^-}f(x) \neq \lim_{x\to a^+}f(x).

Nesse caso, o limite bilateral

lim⁡x→af(x)\lim_{x\to a}f(x)

não existe.

Exemplo​

Considere

f(x)={1,x<0,3,x≥0.f(x)= \begin{cases} 1, & x<0,\\ 3, & x\geq0. \end{cases}

Calculando o limite pela esquerda:

lim⁡x→0−f(x)=1.\lim_{x\to0^-}f(x)=1.

Pela direita:

lim⁡x→0+f(x)=3.\lim_{x\to0^+}f(x)=3.

Como

1≠3,1\neq3,

os limites laterais são diferentes.

Portanto,

lim⁡x→0f(x)\lim_{x\to0}f(x)

não existe.

Assim, ff apresenta uma descontinuidade de salto em x=0x=0.

lim⁡x→0−f(x)≠lim⁡x→0+f(x)\boxed{ \lim_{x\to0^-}f(x) \neq \lim_{x\to0^+}f(x) }

11. Descontinuidade infinita​

Uma função apresenta uma descontinuidade infinita quando seus valores crescem ou decrescem sem limite quando xx se aproxima de determinado ponto.

Por exemplo, considere

f(x)=1x.f(x)=\frac{1}{x}.

Quando xx se aproxima de 00 pela direita,

lim⁡x→0+1x=+∞.\lim_{x\to0^+}\frac1x=+\infty.

Enquanto, pela esquerda,

lim⁡x→0−1x=−∞.\lim_{x\to0^-}\frac1x=-\infty.

Portanto, a função apresenta uma descontinuidade infinita em x=0x=0.

Nesse caso, a reta

x=0x=0

é uma assíntota vertical do gráfico da função.


12. Como identificar uma descontinuidade?​

Ao analisar uma função em um ponto x=ax=a, podemos seguir uma sequência de passos.

Passo 1 — Calcule f(a)f(a)​

Verifique se o valor da função está definido.

Passo 2 — Calcule os limites laterais​

Determine

lim⁡x→a−f(x)\lim_{x\to a^-}f(x)

e

lim⁡x→a+f(x).\lim_{x\to a^+}f(x).

Passo 3 — Compare os limites laterais​

Se

lim⁡x→a−f(x)≠lim⁡x→a+f(x),\lim_{x\to a^-}f(x) \neq \lim_{x\to a^+}f(x),

o limite bilateral não existe e temos uma descontinuidade de salto.

Se os limites laterais forem iguais, podemos escrever

lim⁡x→af(x)=L.\lim_{x\to a}f(x)=L.

Passo 4 — Compare o limite com f(a)f(a)​

Se

lim⁡x→af(x)=f(a),\lim_{x\to a}f(x)=f(a),

a função é contínua em aa.

Caso contrário, existe uma descontinuidade.


13. Resumo​

Para verificar se uma função é contínua em aa, devemos verificar:

lim⁡x→af(x)=f(a)\boxed{ \lim_{x\to a}f(x)=f(a) }

Isso exige que:

f(a) exista,lim⁡x→af(x) exista,lim⁡x→af(x)=f(a).\boxed{ \begin{aligned} &f(a)\text{ exista},\\ &\lim_{x\to a}f(x)\text{ exista},\\ &\lim_{x\to a}f(x)=f(a). \end{aligned} }

Quando essas condições não são satisfeitas, podemos encontrar diferentes tipos de descontinuidade.

TipoCaracterística
RemovívelO limite existe, mas não coincide com o valor da função ou a função não está definida
SaltoOs limites laterais existem, mas são diferentes
InfinitaA função tende a +∞+\infty ou −∞-\infty

14. Próximo passo​

A continuidade não é apenas uma propriedade isolada. Ela possui consequências importantes para o comportamento das funções.

No próximo tópico, estudaremos alguns dos principais teoremas sobre funções contínuas, começando pelo Teorema do Valor Intermediário.