Depois de aprender as propriedades dos limites e algumas técnicas de cálculo, podemos estudar alguns limites que aparecem com frequência no Cálculo I.
Esses limites são chamados de limites fundamentais porque servem de base para a resolução de muitos outros limites e, posteriormente, para a construção das derivadas.
Os principais resultados que estudaremos são:
x→0limxsenx=1
e
x→0limx1−cosx=0.
Também veremos como utilizar esses resultados para calcular outros limites trigonométricos.
1. O limite fundamental do seno
Um dos limites mais importantes do Cálculo é
x→0limxsenx=1
Esse resultado é válido quando x está medido em radianos.
Essa observação é fundamental.
O limite x→0limxsenx=1 só possui essa forma quando o ângulo está expresso em radianos.
2. Uma interpretação intuitiva
Quando x se aproxima de 0, também temos
senx→0.
Portanto, inicialmente temos uma expressão do tipo
00.
Entretanto, apesar de numerador e denominador se aproximarem de zero, a razão entre eles se aproxima de 1:
xsenx→1.
Podemos observar isso numericamente.
| x | xsenx |
|---|
| 0,5 | aproximadamente 0,9589 |
| 0,1 | aproximadamente 0,9983 |
| 0,01 | aproximadamente 0,99998 |
| 0,001 | aproximadamente 0,9999998 |
À medida que x se aproxima de 0, a razão se aproxima de 1.
Assim,
x→0limxsenx=1
A desigualdade fundamental
Considere θ tal que
0<θ<2π.
Pela interpretação geométrica da função seno e da função tangente na circunferência trigonométrica, temos
Pela comparação das áreas dos três elementos geométricos, temos
2cosθsenθ<2θ<2tanθ.
Como
0<θ<2π,
temos
senθ>0ecosθ>0.
Dividindo toda a desigualdade por
2senθ,
obtemos
cosθ<senθθ<cosθ1.
Como todas as quantidades são positivas, podemos inverter as desigualdades. Assim,
cosθ1>θsenθ>cosθ.
Reorganizando os termos,
cosθ<θsenθ<cosθ1.
Por outro lado, da desigualdade inicial
senθ<θ,
e como θ>0, temos
θsenθ<1.
Portanto,
cosθ<θsenθ<1.
Analisando os valores negativos
Precisamos também analisar o que acontece quando θ se aproxima de 0 pela esquerda.
Considere
−2π<θ<0.
Então,
0<−θ<2π.
Podemos aplicar a desigualdade obtida anteriormente ao número −θ:
cos(−θ)<−θsen(−θ)<1.
Sabemos que o cosseno é uma função par:
cos(−θ)=cosθ,
e o seno é uma função ímpar:
sen(−θ)=−senθ.
Portanto,
−θsen(−θ)=−θ−senθ=θsenθ.
Assim,
cosθ<θsenθ<1.
Portanto, a mesma desigualdade vale quando
−2π<θ<0.
Consequentemente, para todo θ tal que
0<∣θ∣<2π,
temos
cosθ<θsenθ<1.
Fazendo θ tender a zero
Agora podemos calcular o limite
θ→0limθsenθ.
Sabemos que, para θ suficientemente próximo de 0, com θ=0,
cosθ<θsenθ<1.
Vamos calcular os limites das expressões que aparecem nas extremidades.
Como a função cosseno é contínua,
θ→0limcosθ=cos0=1.
Além disso,
θ→0lim1=1.
Portanto,
θ→0limcosθ=1=θ→0lim1.
Assim, temos
cosθ<θsenθ<1,
com as duas extremidades tendendo a 1 quando θ→0.
Pelo Teorema do Sanduíche, concluímos que
θ→0limθsenθ=1.
Conclusão
Demonstramos geometricamente que
x→0limxsenx=1.
Esse resultado é conhecido como limite trigonométrico fundamental.
É importante observar que a igualdade depende da utilização de radianos para medir os ângulos.
A partir desse limite, podemos obter diversos outros resultados importantes, como
x→0limxsen(ax)=a,
e
x→0limxtanx=1.
3. Consequência: x→0limsenxx
Sabemos que
x→0limxsenx=1.
Tomando o inverso:
x→0limsenxx=11.
Portanto,
x→0limsenxx=1
4. Exemplo
Calcule
x→0limxsen(5x).
Queremos fazer aparecer o limite fundamental.
Multiplicamos e dividimos por 5:
xsen(5x)=55xsen(5x).
Portanto,
x→0limxsen(5x)=5x→0lim5xsen(5x).
Fazendo
u=5x,
quando x→0, temos u→0.
Assim,
x→0lim5xsen(5x)=1.
Logo,
x→0limxsen(5x)=5
5. Caso geral
De maneira semelhante, para uma constante a,
x→0limxsen(ax)=a
desde que a seja constante.
Demonstração
Escrevemos
xsen(ax)=aaxsen(ax).
Logo,
x→0limxsen(ax)=ax→0limaxsen(ax).
Pelo limite fundamental,
x→0limaxsen(ax)=1.
Portanto,
x→0limxsen(ax)=a
6. Limite fundamental do cosseno
Outro resultado importante é
x→0limx1−cosx=0
Podemos entender esse resultado utilizando uma identidade trigonométrica.
Sabemos que
1−cosx=2sen2(2x).
Então,
x1−cosx=x2sen2(2x).
Podemos escrever
x=22x.
Assim,
x1−cosx=2xsen2(2x).
Agora escrevemos:
2xsen2(2x)=sen(2x)2xsen(2x).
Quando x→0,
sen(2x)→0
e
2xsen(2x)→1.
Portanto,
x→0limx1−cosx=0
7. Um resultado muito útil
Podemos obter outro limite importante:
x→0limx21−cosx.
Utilizando
1−cosx=2sen2(2x),
temos
x21−cosx=x22sen2(2x).
Como
x2=4(2x)2,
obtemos
x21−cosx=21[2xsen(2x)]2.
Aplicando o limite fundamental:
x→0lim2xsen(2x)=1.
Logo,
x→0limx21−cosx=21
8. Limite da tangente
Podemos utilizar
tanx=cosxsenx.
Assim,
xtanx=xcosxsenx.
Separando os fatores:
xtanx=xsenx⋅cosx1.
Quando x→0,
xsenx→1
e
cosx→1.
Portanto,
x→0limxtanx=1
9. Exemplo com a tangente
Calcule
x→0limxtan(3x).
Escrevemos
xtan(3x)=33xtan(3x).
Pelo limite fundamental da tangente,
x→0lim3xtan(3x)=1.
Portanto,
x→0limxtan(3x)=3
10. Um limite envolvendo seno e cosseno
Considere
x→0lim2xsen(4x).
Podemos escrever
2xsen(4x)=24xsen(4x).
Assim,
x→0lim2xsen(4x)=2.
Logo,
x→0lim2xsen(4x)=2
11. Atenção às indeterminações
É importante não confundir uma forma indeterminada com o valor do limite.
Por exemplo,
x→0limxsenx
produz, por substituição direta,
00.
Entretanto,
x→0limxsenx=1
Portanto,
00
não significa que o limite seja zero.
Significa apenas que a substituição direta não é suficiente.
12. Resumo dos limites fundamentais
Os resultados mais importantes deste tópico são:
x→0limxsenx=1
x→0limsenxx=1
x→0limx1−cosx=0
x→0limx21−cosx=21
x→0limxtanx=1
E, para uma constante a,
x→0limxsen(ax)=a
e
x→0limxtan(ax)=a.
13. Estratégia para resolver limites trigonométricos
Ao encontrar um limite envolvendo funções trigonométricas, procure transformar a expressão até aparecer uma das formas fundamentais:
usenu
ou
utanu.
Por exemplo:
xsen(5x)=55xsen(5x).
A partir daí, podemos aplicar diretamente
u→0limusenu=1.
Essa estratégia será utilizada frequentemente no estudo das derivadas.
14. Próximo passo
Os limites fundamentais nos permitem avançar para um dos conceitos centrais do Cálculo Diferencial:
A continuidade de uma função.
No próximo tópico estudaremos o que significa uma função ser contínua em um ponto e como utilizar limites para verificar a continuidade.