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Método da Bisseção

No estudo do Teorema do Valor Intermediário, vimos que, se uma função contínua muda de sinal em um intervalo, então existe pelo menos uma raiz nesse intervalo.

O Teorema do Valor Intermediário garante a existência da raiz, mas não fornece necessariamente seu valor.

O método da bisseção utiliza essa ideia para obter aproximações sucessivamente melhores para uma raiz.

1. A ideia do método​

Considere uma função contínua ff em um intervalo [a,b][a,b] e suponha que

f(a)⋅f(b)<0.f(a)\cdot f(b)<0.

Pelo Teorema do Valor Intermediário, existe pelo menos uma raiz entre aa e bb.

O método da bisseção começa dividindo esse intervalo ao meio.

Definimos o ponto médio

m=a+b2\boxed{ m=\frac{a+b}{2} }

Depois calculamos f(m)f(m).

A partir do sinal de f(m)f(m), escolhemos um dos dois subintervalos:

[a,m][a,m]

ou

[m,b].[m,b].

Escolhemos aquele em que a função continua apresentando mudança de sinal.

Assim, a cada etapa, o intervalo que contém a raiz é reduzido pela metade.


2. Primeiro passo​

Suponha que

f(a)<0f(a)<0

e

f(b)>0.f(b)>0.

Calculamos

m=a+b2.m=\frac{a+b}{2}.

Existem três possibilidades.

Caso 1: O ponto médio é uma raiz​

Encontramos exatamente uma raiz:

m eˊ uma raiz de f\boxed{ m \text{ é uma raiz de } f }

Caso 2: O produto f(a)⋅f(m)f(a)\cdot f(m) é negativo​

A mudança de sinal está no intervalo

[a,m].[a,m].

Então substituímos

b←m.b\leftarrow m.

Caso 3: O produto f(m)⋅f(b)f(m)\cdot f(b) é negativo​

A mudança de sinal está no intervalo

[m,b].[m,b].

Então substituímos

a←m.a\leftarrow m.

O processo pode ser repetido várias vezes.


3. Algoritmo da bisseção​

Podemos organizar o método da seguinte maneira.

Se ff é contínua em [a,b][a,b] e

f(a)⋅f(b)<0,f(a)\cdot f(b)<0,

então o método da bisseção pode ser aplicado para localizar uma raiz de ff nesse intervalo.

Em cada etapa:

  1. calcule o ponto médio;
  2. calcule o valor da função nesse ponto;
  3. identifique o subintervalo onde ocorre a mudança de sinal;
  4. substitua o intervalo anterior pelo novo intervalo;
  5. repita o processo.

O ponto médio da nn-ésima etapa fornece uma aproximação para a raiz.


4. Exemplo passo a passo​

Considere a equação

x2−2=0.x^2-2=0.

Queremos aproximar a raiz positiva utilizando o método da bisseção no intervalo

[1,2].[1,2].

Definimos

f(x)=x2−2.f(x)=x^2-2.

Temos

f(1)=−1f(1)=-1

e

f(2)=2.f(2)=2.

Como

f(1)⋅f(2)<0,f(1)\cdot f(2)<0,

existe uma raiz no intervalo [1,2][1,2].

Primeira iteração​

Calculamos o ponto médio:

m1=1+22m_1=\frac{1+2}{2}

Logo,

m1=1,5.m_1=1{,}5.

Agora calculamos:

f(1,5)=(1,5)2−2.f(1{,}5) = (1{,}5)^2-2.

Portanto,

f(1,5)=2,25−2=0,25.f(1{,}5)=2{,}25-2=0{,}25.

Temos

f(1)<0f(1)<0

e

f(1,5)>0.f(1{,}5)>0.

Logo, a raiz está no intervalo

[1,1,5].[1,1{,}5].

Segunda iteração​

Agora fazemos

a=1a=1

e

b=1,5.b=1{,}5.

O ponto médio é

m2=1+1,52.m_2=\frac{1+1{,}5}{2}.

Assim,

m2=1,25.m_2=1{,}25.

Calculamos:

f(1,25)=(1,25)2−2.f(1{,}25) = (1{,}25)^2-2.

Logo,

f(1,25)=1,5625−2=−0,4375.f(1{,}25) = 1{,}5625-2 = -0{,}4375.

Como

f(1,25)<0f(1{,}25)<0

e

f(1,5)>0,f(1{,}5)>0,

a raiz está no intervalo

[1,25,1,5].[1{,}25,1{,}5].

Terceira iteração​

Calculamos:

m3=1,25+1,52.m_3 = \frac{1{,}25+1{,}5}{2}.

Portanto,

m3=1,375.m_3=1{,}375.

Agora,

f(1,375)=(1,375)2−2.f(1{,}375) = (1{,}375)^2-2.

Temos

f(1,375)=1,890625−2=−0,109375.f(1{,}375) = 1{,}890625-2 = -0{,}109375.

Assim, a raiz está em

[1,375,1,5].[1{,}375,1{,}5].

5. Organizando as iterações​

Podemos organizar o processo em uma tabela.

Iteraçãoaabbmmf(m)f(m)
111221,51{,}50,250{,}25
2111,51{,}51,251{,}25−0,4375-0{,}4375
31,251{,}251,51{,}51,3751{,}375−0,109375-0{,}109375

A cada nova iteração, o intervalo que contém a raiz fica menor.


6. Por que o método funciona?​

O método da bisseção funciona porque preservamos, em todas as etapas, a mudança de sinal da função.

Inicialmente temos

f(a)⋅f(b)<0.f(a)\cdot f(b)<0.

Depois de calcular o ponto médio mm, escolhemos o subintervalo que continua satisfazendo essa condição.

Assim, temos uma sequência de intervalos:

[a1,b1],[a_1,b_1], [a2,b2],[a_2,b_2], [a3,b3],[a_3,b_3],

e assim por diante.

Esses intervalos ficam cada vez menores e continuam contendo uma raiz.

A cada iteração, o comprimento do intervalo é reduzido pela metade.


7. Comprimento do intervalo​

Se o intervalo inicial possui comprimento

b−a,b-a,

depois de uma iteração seu comprimento passa a ser

b−a2.\frac{b-a}{2}.

Depois de duas iterações:

b−a22.\frac{b-a}{2^2}.

Depois de três:

b−a23.\frac{b-a}{2^3}.

Após nn iterações:

b−a2n\boxed{ \frac{b-a}{2^n} }

Esse resultado permite estimar o erro da aproximação.


8. Estimativa do erro​

Se mnm_n é o ponto médio obtido na nn-ésima iteração, a distância entre esse ponto e a raiz pode ser limitada pelo comprimento do intervalo correspondente.

Uma estimativa simples é

∣mn−r∣≤b−a2n\boxed{ |m_n-r| \leq \frac{b-a}{2^n} }

onde rr representa uma raiz contida no intervalo.

Uma estimativa mais precisa, dependendo da convenção utilizada para contar as iterações, pode considerar metade do comprimento do intervalo atual.

O ponto principal é que o erro diminui geometricamente, pois o intervalo é dividido por 22 a cada etapa.


9. Quantas iterações são necessárias?​

Suponha que desejamos garantir que o comprimento do intervalo seja menor que uma tolerância ε\varepsilon.

Precisamos que

b−a2n<ε.\frac{b-a}{2^n}<\varepsilon.

Multiplicando por 2n2^n:

b−a<ε2n.b-a<\varepsilon2^n.

Dividindo por ε\varepsilon:

b−aε<2n.\frac{b-a}{\varepsilon}<2^n.

Aplicando logaritmo:

log⁡(b−aε)<nlog⁡2.\log\left(\frac{b-a}{\varepsilon}\right) < n\log2.

Portanto,

n>log⁡(b−aε)log⁡2\boxed{ n> \frac{ \log\left(\frac{b-a}{\varepsilon}\right) }{ \log2 } }

Essa expressão permite determinar um número suficiente de iterações para atingir uma determinada precisão.


10. Exemplo de precisão​

Considere novamente

f(x)=x2−2f(x)=x^2-2

no intervalo

[1,2].[1,2].

Suponha que desejamos reduzir o comprimento do intervalo para menos de

0,01.0{,}01.

Precisamos de nn tal que

2−12n<0,01.\frac{2-1}{2^n}<0{,}01.

Logo,

12n<0,01.\frac{1}{2^n}<0{,}01.

Como

0,01=1100,0{,}01=\frac1{100},

temos

2n>100.2^n>100.

Como

26=642^6=64

e

27=128,2^7=128,

concluímos que

n=7\boxed{ n=7 }

iterações são suficientes para que o comprimento do intervalo seja menor que 0,010{,}01.


11. Vantagem do método da bisseção​

Uma das principais características do método da bisseção é sua simplicidade.

Para aplicá-lo, precisamos basicamente:

  • de uma função contínua;
  • de um intervalo inicial;
  • de uma mudança de sinal.

Além disso, o método possui uma propriedade importante: quando as hipóteses são satisfeitas, o processo mantém um intervalo que contém uma raiz.


12. Limitação do método​

Embora seja um método seguro para localizar raízes sob suas hipóteses, a bisseção pode exigir muitas iterações para atingir uma precisão elevada.

Isso ocorre porque o intervalo é reduzido apenas pela metade a cada etapa.

Existem outros métodos numéricos que podem convergir mais rapidamente, como o método de Newton.

Entretanto, esses métodos possuem outras condições e características que serão estudadas posteriormente.


13. Exercício resolvido​

🧩 Exercício 1 Média

Considere

f(x)=x3−x−1.f(x)=x^3-x-1.

Sabendo que ff possui uma raiz no intervalo [1,2][1,2], utilize o método da bisseção para determinar o intervalo que contém a raiz após duas iterações.

Primeiro verificamos os valores nos extremos:

f(1)=13−1−1=−1f(1)=1^3-1-1=-1

e

f(2)=23−2−1=5.f(2)=2^3-2-1=5.

Portanto, existe uma raiz em [1,2][1,2].

Primeira iteração​

O ponto médio é

m1=1+22=1,5.m_1=\frac{1+2}{2}=1{,}5.

Calculamos:

f(1,5)=(1,5)3−1,5−1.f(1{,}5) = (1{,}5)^3-1{,}5-1.

Logo,

f(1,5)=3,375−2,5=0,875.f(1{,}5)=3{,}375-2{,}5=0{,}875.

Como

f(1)<0f(1)<0

e

f(1,5)>0,f(1{,}5)>0,

a raiz está em

[1,1,5].[1,1{,}5].

Segunda iteração​

Agora calculamos

m2=1+1,52=1,25.m_2 = \frac{1+1{,}5}{2} = 1{,}25.

Então,

f(1,25)=(1,25)3−1,25−1.f(1{,}25) = (1{,}25)^3-1{,}25-1.

Assim,

f(1,25)=1,953125−2,25=−0,296875.f(1{,}25) = 1{,}953125-2{,}25 = -0{,}296875.

Como

f(1,25)<0f(1{,}25)<0

e

f(1,5)>0,f(1{,}5)>0,

a raiz está no intervalo

[1,25,1,5]\boxed{ [1{,}25,1{,}5] }
🧩 Exercício 2 Média

Considere

f(x)=x2−3.f(x)=x^2-3.

Utilizando o método da bisseção no intervalo [1,2][1,2], determine o ponto médio obtido na primeira iteração e identifique o novo intervalo que contém uma raiz.

O ponto médio do intervalo [1,2][1,2] é

m=1+22=1,5.m=\frac{1+2}{2}=1{,}5.

Agora calculamos

f(1)=12−3=−2f(1)=1^2-3=-2

e

f(1,5)=(1,5)2−3=2,25−3=−0,75.f(1{,}5) = (1{,}5)^2-3 = 2{,}25-3 = -0{,}75.

Os dois valores ainda são negativos.

Por outro lado,

f(2)=4−3=1.f(2)=4-3=1.

Portanto, a mudança de sinal está entre 1,51{,}5 e 22.

Logo, o novo intervalo é

[1,5,2]\boxed{ [1{,}5,2] }

14. Resumo do método​

Para aplicar o método da bisseção:

Escolha [a,b] tal que f(a)f(b)<0\boxed{ \text{Escolha }[a,b]\text{ tal que }f(a)f(b)<0 }

Depois:

m=a+b2\boxed{ m=\frac{a+b}{2} }

Calcule f(m)f(m) e escolha o subintervalo que mantém a mudança de sinal.

Repita o processo até alcançar a precisão desejada.

A cada iteração:

novo comprimento=comprimento anterior2\boxed{ \text{novo comprimento} = \frac{\text{comprimento anterior}}{2} }

Portanto, o método da bisseção transforma o Teorema do Valor Intermediário em um procedimento prático para aproximar raízes de equações.


15. Próximo passo​

Agora que já sabemos como localizar uma raiz por meio da bisseção, podemos voltar nossa atenção para outro comportamento importante das funções:

o que acontece quando xx cresce indefinidamente?

No próximo tópico estudaremos os limites no infinito e as assíntotas horizontais.